30 de julho de 2011

(Literalmente) A nossa visao do Mundo

O que têm Pedro Nunes, Gerardus Mercator e Gall-Peters em comum?

Pedro Nunes nasceu em Alcácer do Sal em 1502 e é considerado um dos maiores matemáticos do seu tempo.
Uma das suas invençoes mais curiosas foi talvez o nómio (assim chamado pela versao Latina do seu apelido)! Inventou-o usando-o em astrolábios e a escala de Vernier (paquímetro ou craveira como lhe chamamos em Portugal) inventada somente dois séculos depois nao é mais do que uma adaptaçao diferente do nómio de Pedro Nunes.
Mas onde este Português, novo Cristao de origem Judia, realmente deixou um enorme legado foi no campo da navegaçao, e talvez pelo que é mais conhecido e reconhecido mundialmente é pelos seus cálculos sobre as linhas loxodrómias.
Entende-se por linha loxodrómia a linha (nao perpendicular pense-se) que mantém o mesmo ângulo com todos os meridianos. Antes deste matemático o demonstrar diferente, pensava-se que se se seguisse, em navegaçao, esta relaçao com os meridianos, eventualmente se daria uma volta ao mundo voltando ao mesmo sítio. Este erro dá-se por se tentar representar, e pensar, em algo que tem um volume esférico num plano em duas dimensoes, mapa. O que ele demonstrou é que se se mantiver esta relaçao nao se percorre um circulo à volta da Terra mas antes uma espiral que se dirige a um dos pólos sem nunca o tocar.

Este novo conhecimento foi, e continua a ser, de uma importância abissal para a navegaçao e é um conceito tao actual que pertence ao domínio corrente de qualquer marinheiro.

Gerardus Mercator (forma latinizada de Gerard Cremer) nasceu numa cidade Flamenga onde é hoje o norte da Bélgica.
Foi um importante cartógrafo sem grande notoriedade no seu tempo mas com um contributo muito importante (mais do que podia ele esperar imagino) para o mundo da navegaçao bem como todo o mundo moderno.
O Mapa Mundi como geralmente é chamado, ou Mapa Mundo, tem o seu nome verdadeiro como Projecçao de Mercator. Foi desenhado como um mapa auxiliar para a navegao e as suas projecçoes assentam na base de que as linhas loxodrómias sao paralelas e rectas. Esta escala linear, constante e conformal permite manter a relaçao angular entre as linhas do mapa podendo os navegantes traçar rotas rectas (com régua e esquadro, faço a redundância para chamar à imagem filmes ou séries onde vemos isto acontecer) entre dois pontos e assim seguir o rumo desejado, conhecendo distâncias e posiçoes.
A projecçao é simples... imaginem uma esfera (a Terra), agora separem os pólos de forma a que a esfera se abra num cilindro, ao abrir verticalmente este cilindro temos o habitual Mapa Mundo. É assim que é projectado.
Como disse este mapa foi inicialmente desenhado para auxiliar os navegantes mas depressa que tornou na representaçao standart para a planificaçao do nosso planeta.
Existem no entanto muitas outras, todas com os seus pontos fortes e fracos, uma vez que, como disse, nao é possível representar fielmente algo tridimensional em algo bidimensional.
Os pontos fortes da projecçao de Mercator já referi, os pontos fracos sao que esta distorçao da Terra mostra-nos uma área aumentada nos pólos! Quanto mais nos afastarmos do Equador mais as áreas sao exageradas.
A Gronelândia parece quase do tamanho de África mas na verdade é quase 14 vezes mais pequena, por exemplo. E o Polo Sul, de igual modo, parece enorme e na verdade é apenas o 5º da lista no que concerne a tamanho.


E onde entram entao Gall-Peters nesta História?
Estes senhores (James Gall e Arno Peters) deviam ter passado despercebidos na História Mundial... seriam mais uns cartógrafos amadores como outros milhares e assim teria sido... se as coisas se passassem como normalmente passam.
Mas eles tiveram a ousadia de propor (e serem ouvidos) uma nova projecçao do Mundo. Uma projecçao que, segundo eles, seria mais correcta e, veja-se, mais solidária! Foi quase como se eu ousasse agora dizer que tenha uma teoria melhor para a Criaçao da vida e ter crédito por isso!
Foi uma grande controvérsia que passou na segunda metade do século passado. E passou porque... se calhar... eles tinham razao!!!
Na sua projecçao, áreas de tamanho igual no globo aparecem iguais no mapa. E termos técnicos à parte que eu também nao entendo completamente, a verdade é que pelo menos as áreas sao mais semelhantes às verdadeiras.
Acontece que com esta projecçao, como podem ver, os países subdesenvolvidos sao realmente aqueles que maior área ocupam no mapa (porque sao, naturalmente, os maiores) e é por isto que esta projecçao causou tanta controvérsia... nao foi aceite pela comunidade científica mais creditada e as críticas à discriminaçao fizeram-se ouvir. Alguns grupos religiosos ou com outras convicçoes sociológicas continuam a pretender que se respeitem as áreas e que se atribua a verdadeira parte do mundo a estes continentes.


Quando vi esta projecçao pela primeira vez causou-me estranheza... como se as coisas nao estivessem no seu devido lugar! Mas é mesmo assim... existem tantas coisas sobre as quais nunca pensamos que quando chega o dia... é difícil entender diferente.

28 de julho de 2011

Radio 3

Algures por Espanha

E - Portugal tem bons músicos!
I- Sim, é verdade, por acaso acho que temos bons músicos!
E - Caetano Veloso por exemplo.
I (risos) - Bem... esse é Brasileiro, canta em Português mas é Brasileiro!
E - Ah!... Bem e o Jobim também é muito bom.
I - Hum... Esse também é Brasileiro.
E (risos) - Bem... e aquela mulher... como se chama, é muito conhecida? Ela é Portuguesa nao?
I - Amália Rodrigues?
E - Ivete Sangalo...
I - ...


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A ligar a um jurista:

I - Hola buenas tardes, he visto su nombre en un listado de traductores oficiales de Portugués y vi que su dirección está cerca de mi casa, puedo hablar en Portugués con usted?
J - Sim pode!
I (pequena pausa hesitante de dúvida comprovada pelo seguimento da conversa: era uma Espanhola, que havia aprendido Portugués e fazia traduçoes oficiais de ES-PT, mas o português que aprendeu era Brasileiro)
(...)
J - Pois eu entendo o que me está dizendo! Mas eu so faço de Português-Espanhol e ao contrário, se quer do Português para o Inglês posso dar-lhe o contacto de um companheiro meu, de Barcelona.
I - Está bem!

Ligo para o outro jurista:

I - (bla bla bla) Posso falar em Português?
J2 - Sim pode! - outro Espanhol que havia aprendido a falar Brasileiro.

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No trabalho ouvimos muito a Rádio 3! É o que dá trabalhar com artistas! O que vale é que eu gosto de músicas mais alternativas também, ou, melhor dito: contemporâneas... nesta rádio ouve-se desde música clássica a sons grotescos que mais parecem vir de dentro de uma gruta onde alguém grita para dentro de um didjeridu. Noutras ocasioes ouve-se jazz, blues, músicas onde parece que uma orquestra está nao a tocar, mas a partir os instrumentos e muitos outros estilos, assim como bossa nova - a "música Portuguesa" - ...
Ouço cantores Brasileiros que nao conheço e músicas que nunca ouvi... hoje por exemplo estive umas duas horas a ouvir bossa nova do Brasil, aqui em Espanha.

Pergunto-me quem afinal fala Português, mais, quem afinal espalha a língua que falo, quem a dá a conhecer...

A consciência e a experiência de viver estes momentos, e outros, obriga-me a ter esta opiniao!

27 de julho de 2011

What the bleep do we know?

Pouco posso dizer sobre este documentário que voces nao possam ler melhor neste link:

http://www.whatthebleep.com/

Vi duas versoes do mesmo: uma curta primeiro e depois uma mais longa.
A segunda começa com umas imagens a preto e branco e nao gostei nada... muito anti-religiao e parece mais um desses videos que existem aos milhares com teorias da conspiraçao... enfim, fiquei desiludido com este inicio e nao sei se inicialmente foi feito assim e depois cortaram ou ao contrário, de qualquer forma, acho que vale a pena ver a versao reduzida; muito mais concisa no que é a mecanica quantica, a realidade e os paradigmas actuais sobre estes temas.

Nao sei nem como descreve-lo bem... Se disser que fala de fisica quantica aqueles que nao ligam a física nao acharao interessante à partida para pesquisar sequer. Mas é mais do que isso... fala sobre o que é a realidade, o que sao os pensamentos, onde é que existimos e como afectamos o que nos rodeia. Bem... se tiverem oportunidade vale realmente a pena ve-lo, reparem em todos os prémios que recebeu! Acho que está muito bem realizado, ao mesmo tempo que é um documentário é um filme também.

Para uma destas tardes de Verao... fica o conselho!
Seguramente que vos mudará, de alguma forma, a forma de ver o mundo!

(Existem vários videos no youtube com partes do documentário... este deixa perceber mais um pouco do que se trata: http://www.youtube.com/watch?v=m7dhztBnpxg)

20 de julho de 2011

Balut

Já disse aqui várias vezes como gosto de cozinhar, em geral, e em como gosto de experimentar comida de outros países.

Até hoje nao tinha havido uma comida, por mais estranha, bizarra ou nojenta que parecesse que tivesse dito com tanta veemência: "É que nunca na vida!!!", estou a falar da receita Balut ("envolto").

Eu já ouvi e vi - na televisao quanto mais nao seja - pessoas que comeram escorpioes, formigas, cao, larvas, gafanhotos, gato, ganguru, cavalo, foie gras (sim, para mim é nojento), todo o tipo de peixe cru, areia, cobra, pernas de rã, testículos, sangue... e a lista continuaria se continuasse a pensar... mas nunca a ideia de comer algo, nem nada nesta lista, me deu tanto asco como o Balut...!

Balut é uma iguaria Filipina e dizem até que afrodisíaco - o que só piora a imagem.
A receita é muito simples, deixo-a, para se quiserem provar:

Precisam de um ovo de pato, fertilizado e com o embriao dentro.
Deitam o ovo para dentro de uma panela e cozem-no... e é isto!!!

Acompanhe-se (depois de aberto o ovo e exposto o embriao) com sal e/ou vinagre, ou o que queiram que vos ajude a nao vomitar...

Acho que ainda estou maldisposto, só de pensar........

19 de julho de 2011

Um passo à frente

Existem várias coisas que, curriculamente, nos distinguem dos outros.

Dependendo de onde estamos existem coisas que sao valorizadas e outras já nao, em alguns países, ter uma licenciatura é sinónimo de ser chefe de serviçio, noutros, nao é sinónimo de nada!

Algo que fica sempre bem em qualquer curriculum, e em qualquer parte do mundo, sao as línguas.

Quando digo que falo e escrevo fluentemente 3 linguas isso parece muito bem no curriculo e ao adicionar o Finlandes com um conhecimento Europeu de A1, que nao é nada e nao serve para nada, dá sempre contexto para conversa e é quase tao útil como as 3 que conheço realmente bem.

Conhecer línguas estrangeiras é realmente muito muito útil e para mim o primeiro item a acrescentar a qualquer formaçao - curso profissional, licenciatura, outros cursos, enfim.

Nao me deixa de ser impressionante como falar Inglês em Espanha é uma graaande mais valia. Sinto-me com um olho em terra de cegos, é impressionante. Em Portugal falar Ingles é banal e ninguém se impressiona com isso, é um requisito mínimo que temos estabelecido, mas para os Espanhois é algo de raro ainda... já se aperceberam da necessidade, mas estao hoje a dar os primeiros passos no sentido de colmatar essa falha. O orgulho pela sua língua - merecido diga-se de passagem pois é a segunda mais falada no mundo - foi desmedido e estao agora a perceber isso.

No entanto... e quando eu estou a achar "Bem... estou confortável no tema das línguas" vejo pessoas "normais" (várias no grupo alíás) que: para o marido falam em Árabe (ARABE), para mim falam em Inglês, para a amiga falam em Espanhol e para a vizinha em Francês... e eu penso "Bolas... se calhar... tenho muito tempo que compensar!!!"

Gostava de aprender mais línguas, está nos meus planos, mas tenho de ver como me corre tudo!

Este post podia ser um das "Perspectivas", porque realmente, se para uns é um passo a frente já, para outros... vale de muito pouco...

15 de julho de 2011

Uma conversa muito informal

Espanhol - Oh Igor nao me contes histórias, se Portugueses e Espanhois somos todos iguais, é tudo o mesmo, isto devia ser uma Uniao Ibérica e que nos deixemos de parvoices. Se vais ao Alentejo ou a Andaluzia é igual, o tempo é igual, a paisagem é igual, a comida é igual... vais a Galiza parece que estás em Portugal. Isto desta separaçao é uma parvoice, a única coisa em que somos diferentes é que os portugues sao como espanhois, só que tristes! Sim é isso os Portugueses sao Espanhois tristes! Poe-se a ouvir Fado e ficam deprimidos!

Fartei-me de rir com a dos Portugueses serem Espanhois tristes (ou os Espanhois seriam Portugueses contentes, um dos dois).
Nao estou a dizer que concordo. Mas os Espanhois, com orgulho em Espanha, com o directos que sao e com a vontade de "salir de copas" todos os dias (e sim fazem-no), aparentam (aparentam) ser bastante felizes.
Na verdade eu acho que somos bastante felizes também, igual ou mais, isso depende e acho que nao se pode comparar (ainda que realmente muitos estudos o tentem... e depois dizem que os dinamarqueses sao os mais felizes do mundo.... sim claro!!), mas realmente eles mostram-no mais, sao mais "barulhentos"!
Bem, foi pela descriçao engraçada. Quem mo disse foi um bom amigo meu aqui e ri-me muito pela forma como o disse (tudo), tao natural... como se fosse a coisa mais evidente do mundo!

Histórias no AVE - Los dientes de Raquel

AVE é o acrónimo para Alta Velocidad Española.


É o transporte que mais uso aqui em Espanha, para o trabalho vou a pé - bem, agora agora de bicicleta - e quando tenho de viajar (em trabalho) é o meio que prefiro.

Como comboios novos e de alta velocidade sao naturalmente bastante confortáveis, com um design exterior aerodinâmico e com o interior desenhado com traços e funçoes executivas.

Como as viagens que faço normalmente demoram mais de 2h, vejo sempre o filme que passam e recebo os auriculares que nos oferecem. Vou distribuindo por quem me pede, por estas viagens tenho sempre montes de auriculares espalhados pelo trólei que levo sempre.

Enquanto o filme nao começa, ou depois de haver terminado, oiço música. Ligo os auriculares ao rádio do banco e escolho uma das 8 estaçoes pré-definidas.

Também aqui se nota que a escolha das estaçoes de rádio nao foram feitas ao acaso, senao seleccionadas para uns ouvintes muito específicos.
Em quase todas se ouve música clássica, jazz, blues, bossa nova (a música "Portuguesa" que mais se ouve aqui em Espanha) e outros estilos neste registo.
Adianto que poucas coisas me relaxam mais, que me deixam com aquela sensaçao de conforto sereno, satisfeito e agradável, que estar sentado no AVE a olhar o nascer ou o pôr do Sol com aquela paisagem que podia tao bem ser Alentejana, ou Minhota, ou outra, dependendo para onde viaje, e deixar o pensamento fluir para o vazio. É um momento de verdadeiro desprendimento.

Nestas rádios, muitas vezes, também se contam contos. Pequenas histórias de escritores apreciados pela crítica que nos entretêm ou nos fazem reflectir, os dois normalmente.

Um dia destes, estava a ouvir uma música, clássica se me recordo, e no fim, a locutora, começou a falar de um escritor Venezuelano, um tal Gabriel Giménez cujos contos surrealistas seriam muito interessantes.
A forma cíclica e interminável como escrevia estes contos caracteriza-o e destacava-o. Comentava ainda que um dos seus contos mais conhecidos é O homem dos pés perdidos e Os dentes de Raquel.


Fiquei curioso e deixei-me a ouvir o segundo conto, que foi o que leu:

Raquel mordió una manzana, y todos sus dientes quedaron en ella. Fue a su casa con la boca sangrando a avisarle a su mamá. La mamá vino corriendo asustada a buscar los dientes de Raquel, y cuando llegó, los dientes se habían comido la manzana.
La mamá quiso recogerlos, pero los dientes se levantaron y se comieron a Raquel y al mamá.
Después, los dientes volvieron a la boca de Raquel, quien muy hambrienta corrió a pedirle a su mamá 

que le comprara una manzana.


Fiquei sem reacçao... ou antes, fiquei "quê?"!
Uma vez com uma amiga inventámos a palavra "cosmaut" e inventámo-la por momentos como este!
A minha avaliaçao pessoal de um conto como este é a mesma que fiz quando acabei de ler A Metamorfose: demasiado parvo para ser genial.
O problema desta afirmaçao, e dizia-a consciente disto, é que a linha entre a genialidade e a estupidez, muitas vezes, nao é fácil de definir.
Ocorreu no entanto que, depois de perceber o contexto em que Kafka escreveu A Metamorfose e de entender a palavra kafkiano, percebi muito melhor o "texto" por detrás do texto e deixei de achar que era parvo.
Pois passou-se mais ou menos o mesmo com este.
Bem... continuo a nao achar grande interesse neste conto em particular, acho mais graça ao do Homem dos pés perdidos - que li depois - e mais ainda a outros como Deus, A Brevidade, O Idiota e Arquivo dos esquecimentos. 
Achei o momento muito curioso e pensei que tinha do partilhar... no momento seguinte em que voltou a ouvir-se algum clássico e que pela janela o Sol já mal se via por detrás de sobreiros e montes baixos.